c Trambolhão: Na praia

domingo, outubro 11, 2009

Na praia

Entre as marés, ias e vinhas. Com pés molhados e mãos húmidas, sorrisos com tosse, essa sim seca. O corpo estendido na areia, areia grossa, que não passava através da peneira. Peneira tinhas tu, o corpo estendido na toalha brilhava como um diamante. Pouco lapidado, bruto, demasiado natural, demasiado à vontade. Ias e vinhas no pensamento alheio. Ias e vinhas em sonhos pouco confortáveis, sestas americanas de televisão pouco consistente. Tocavas no joelho com as unhas, restavas tu e o pescador cinzento, os dois sem pudor de corpos nus. Ele esperava sem se queixar e tu queixavas-te sem esperar nada em troca. O anzol dele trazia um peixe nú e crú, a respirar os últimos mandamentos, parou no quarto. Infelizmente tu cobiçavas a mulher do outro, com sede, pois o mar estava demasiado salgado. O outro ignorava os teus olhares, fingia tropeçar nas caivas de sapatos e escondia a cara no prato. O peixe estava cru e pouco salgado, já as batatas brilhavam com sal. Tu espreitavas através do copo de vidro para ela, com a cara manchada de tinto escuro e fazias graças com a língua. Graças infantis como tinhas aprendido em adulto, ela era loura de cabelo solto, anjo de dia, demónio de tarde. Trazia um sapato de cada cor e pendurava ao pescoço um amuleto contra o mal olhado, um olho grande, azul, marcado no seu peito com o peso do marido no seu corpo, todas as manhãs, excepto nos dias feriados em que ele saia de manhã cedo sem se lembrar do corpo dela. Riscavas o prato com força, a faca estava vermelha com sangue do peixe pouco grelhado e resplandecia o calor dos teus dedos, levantavas-te e ias olhar o mar, ela desorientada ia fazer café para os três. O outro convidava-te para jogar xadrez, dois reis, mas apenas uma rainha e tu perdias a fome, levantavas-te e ias olhar o mar, não conhecias o jogo desta forma.

De noite deliravas.

O teu corpo dourado ao sol.

1 Comments:

At 5:54 da manhã, julho 22, 2010, Blogger Maisa said...

você escreve muito bem *-* SEGUINDO.

 

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