Sunny day
Se ontem o dia anoiteceu triste, hoje a manhã cinzenta enevoou os meus olhos.
Confirma-se a reeleição do primeiro ministro José Sócrates. Não é o meu primeiro ministro, nem o meu último, é só mais um a quem infelizmente deram a oportunidade de se reinventar outra vez.
Acontece que Portugal não é um país de oportunidades, é um país onde eu não tenho a oportunidade de escolher quem eu quero como primeiro-ministro, mas se a maioria ditou, assim seja, vamos lá ser democráticos.
O respectivo senhor tem conseguido a muito custo provar ao longo dos dias a excelência do seu carácter, o seu humanismo e o seu envolvimento em causas ambientais, o seu empenho em promover a liberdade democrática da classe jornalística e a sua compaixão pelas criancinhas, cabe a ele a generosidade de receber as manifestações de descontentamento dos vários sectores laborais com o sorriso mais branco que existe, um sorriso casto e puro como convém sempre a um Primeiro Ministro.
Quase que me arrisco a dizer, é Deus na Terra, são os sorrisos brancos a aguardarem entrada impacientemente nas portagens divinas.
O discurso de vitória soube a pouco, parecia que tinha sido uma cena montada com alguns figurantes contratados à última da hora, com bandeiras pouco agitadas, ao contrário de outras cores políticas em que as lágrimas de alegria espreitavam os olhos comovidos e emocionados dos seus interlocutores.
Resta-me concluir que a política nacional precisa de caras novas, uma lufada de ar fresco a inspirar a classe trabalhadora, ainda sem tiques, sem hábitos de expressão!
O meu país
Rosas de rios,
Verdes de ventos,
Terras estendidas,
Pescoços esticados,
A olhar em frente,
Para as ondas azuis desconhecidas.
Num território inquieto, sem dono e com irmãos forçados,
As bengalas são esquecidas,
As gentes esforçadas despertam a madrugada,
Enquanto os campos dormem em silêncio,
A cidade abre goelas,
E chora como uma criança perdida,
Que se perde na multidão.
Pragueja-se aqui um certo desamor,
O paladar não reconhece o vinho da aldeia,
As mãos apertam com força o colarinho da justiça,
As vitórias tropeçam nas escadarias do poder.
Mas os cordões estão soltos,
Libertaram-se as músicas,
Multiplicaram-se os poetas,
Os múrmurios rezam em liberdade.
O Ritmo
Detesto sentir pena de mim.
Mas como é recorrente este sentimento!
Não gosto de me sentir ofegante,
Mas é preciso correr para chegar lá.
O parque de estacionamento treme,
As moedas pretas não me compraram o lugar.
Já chega de surpresas,
E de mafiosos de sapato branco em casa, Soraia.
Quantas vezes te repito,
“Como te chamas?”
E só me respondeste uma vez,
“Emanuel Tin Tin.”
Gosto de ti assim.
Apetece-me que alguém me diga, és a melhor.
E só me dizem, és a pior.
Ser caixa de supermercado é sofrido,
Os velhos não deixam gorjeta.
Asneiras, Falhas, Decepções,
Errar é humano,
Inumano é não compreender.
Transito de folha,
Mais um episódio da novela,
Jogar às cartas alivia a tensão,
Uma massagem indiana quebra o coração.
Sei fazer contas,
Mas escrever baralha-me a mão.
Prefiro somar e subtrair,
A acrescentar e apagar.
Não passo sem a calculadora,
Já o dicionário pesa no braço.
Tiques de samba,
Batuque de isqueiro,
Jogo do pião na praça,
Cintura de abano e dedo no piano.
Hoje há festa,
O alcóol tresanda a praça,
O Emanuel rima versos sentado,
Assim as pernas não lhe fogem.
Canto de xaile,
Bato na janela,
A Soraia espreita malandra,
O ritmo invade os corpos,
A lua esconde-se envergonhada.
Não há quem me vença,
Esta noite dona serei da minha praça!
O viajante
Insisto em oferecer-te um par de asas ,
Que tu diariamente escondes dentro do armário,
Para ti os anjos não podem voar.
Sentado na berma da estrada, a ver os carros passar.
As boleias assobiam ao fresco,
O teu rosto emudecido devolve educadamente a oferta,
prefere o trilho de volta a pé.
Até o par de sapatos de dança rotos pouco efeito tem,
Tu dizias, sapatear descalço no alcatrão da estrada é por acaso, uma pura sorte.
O saco carregado de dúvidas às costas, de letras matemáticas com cifrões em chavo,
E picaretas de carvão suadas de lágrimas,
Acumula-se solidamente.
Encurvam-se as costas do soldado vagabundo,
Encolhe-se o olhar, numa franja que esconde o desafio.
Se os se’s crescem à medida das pulsações,
São ervas daninhas da razão,
Trepadeiras das pernas,
Impedem o voo nocturno e celeste do viajante.
Já não se vê o fim do trajecto,
Mas também nunca se viu o princípio.
Em caso de dúvidas a tabuleta indica o sentido,
E o cheiro do mar salgado põe em movimento a marcha.
A garrafa de oxigénio já pesa nas costas,
Há que soltá-la e respirar livremente,
O primeiro sonho quer ser colorido,
A primeira estrada vai ser percorrida,
A primeira vida tem de ser vivida.
Porque nunca é tarde demais para repetir
Para ser grande, sê inteiro
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive
Ricardo Reis
Gostei desta frase
É como pedir a um taxista para ir a viagem toda em ponto morto.
Achei que valeu a pena ver o "The big white", ou em português, "Quem está morto sempre aparece".
Enquanto dormias.
A noite cai escura e densa como o manto cobre o rosto de uma criança.
Tenho medo de me tornar banal,
E de que as minhas frases soem a feitas frases.
Tenho medo que o tempo se torne o meu tema favorito,
E as correntes do ar levem o meu auditório a bocejar desenvergonhadamente.
Tenho inclusivé medo de quem nem os papagaios me imitem solenemente.
Tenho medo de me tornar banal,
Por isso deixo que os outros falem por mim.
Deixo que eles se ouçam a si próprios, enquanto eu apenas abano a cabeça.
Terminado o monólogo, normalmente dizem-me "gostei de conversar contigo."
E eu abano a cabeça uma última vez.
E sorrio, sem pronunciar palavra.
Gosto de sentir as lágrimas a deslizar pelas minhas pestanas,
De passar os dedos por elas e torcê-las,
Dobrá-las, trocar-lhes as voltas,arrancá-las.
A última lágrima escorre pelo meu nariz, dobra a minha face, curva os meus lábios,
Entra na minha boca,
Desce pela minha traqueia,
Penetra nos meus músculos,
Para enrijecer a minha carne,
E torná-la salgada e seca, como a pele curtida ao sol no verão.