c Trambolhão: A estação de comboio evitava as filas.

terça-feira, outubro 18, 2011

A estação de comboio evitava as filas.

A estação de comboio evitava as filas.


Ali, a multidão formava um novelo humano, cuja ponta de início não se encontrava facilmente. Chegavam carruagens vazias, outras cheias, outras ainda a meio gás. Era fácil hesitar em subir para uma delas, não havia nada que as distinguisse, um pequeno pormenor como um lenço a abanar, ou um sorriso tímido a fazer de convite pessoal.


As carruagens seguiam umas atrás das outras, unidas pela urgência de chegar ao destino e pelas mãos de um maquinista, que compunha a orquestra da cena. O maquinista, esse, hoje estava atrasado, tinha ele próprio quase perdido o comboio porque não se levantara a horas e só chegou à estação quando ouviu o apito final a desenhar o seu destino. Seria despedido se não comparecesse ao trabalho e isso era quase impensável, não permitia que o seu destino se resolvesse por uma falta de atenção tão bárbara e mesquinha, afinal, ele não conseguia controlar os horários da sua vida, era um ser pequeno, mais pequeno do que imaginava.


Ninguém na estação se apercebeu do seu pequeno drama. Do esforço que fez, dos pequenos passos que deu em direcção à máquina, pequenos mas pesados, pouco saltitantes, esforçados, transpirados. Da falta de pulsação que sentiu, do nó na garganta que deglutiu, do boné enfiado ao contrário, do bom dia murmurado aos passageiros sem se ouvir no fundo da carruagem.


Pois lá no fundo atiravam-se as malas de cartão, velhas, esquecidas, que agora já não incomodavam ninguém, pelo menos durante algumas horas. Os passageiros acomodavam-se e fechavam os olhos. Ou então olhavam pela janela e cantavam pela última vez a canção da despedida que traziam amarrotada no bolso das calças, nas luvas de pele das senhoras magras e elegantes, nos cabelos apanhados das senhoras fartas e roliças, nos brinquedos das crianças.

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