c Trambolhão: Na Primeira Pessoa

domingo, dezembro 18, 2005

Na Primeira Pessoa


Lá fora não há ninguém. Perturba-me escrever quando pressinto os passos vindos por detrás de mim, que espreitam os meus escritos inacabados. Fecho o ecrã. Olho para a minha mão, tem um M desenhado à antiga, será um M cozido com uma linha transparente mas que não desaparece. A cigana disse que eu ia ser muito feliz e depois muito infeliz. Não haverá meio termo pensei eu? Não me dão a hipótese de escolher o que quero? E eu não conto para o meu Destino? Serei só uma marioneta nas vossas mãos, na tua, na dele? Não, não aceito, estou inconformada com o caminho das coisas. O tal Sr. do outro dia, com olhos carregados de cinzento disse-me que não. Ele tinha um chapéu preto e impunha respeito, era alto. Ok, se ele disse que não, então eu só posso encolher-me nos meus ombros fininhos. Vou passear ao café. Lá estarão mais destas linhas de eléctrico escritas sobre palmas de mãos de srs. e sras. mais idosos... Vamos comparar, mas nestas há tantas, e entrecruzam-se, que me perco em histórias mirabolantes sobre Pensões e Remédios e fábulas de adormecer com aldeias e filhos e netos. Pago a conta. O meu caderno preto ficou perdido na paragem de autocarro. Volto para trás, estará nas mãos de uma criança morena pequena com 1096 dias. Ela não percebe nada do que lá está escrito, são só bonecos para o seu imaginário. Mas vejo uma mão estendida. Posso comparar com a minha, lá estão desenhadas apenas três linhas distintas, claras e bem definidas. A vida nela ainda pode ser escrita e reescrita, a sua palma é só um quadro em branco, é a metáfora da tábua rasa. Quando quero conhecer a história de vida de alguém, tenho sempre o péssimo hábito de lhe pedir que me abra a mão esquerda, porque está mais próxima do coração. Depois tento percorrer todos os caminhos que lá se mostram, onde não há portas escondidas nem traços apagados, está tudo reflectido sem pudor nem despudor, os montes, os vales da lua, os empregos, os sonhos perdidos ou não... Estão lá também os calos, as unhas (im)perfeitas, os acessórios, as alianças ou as separações, as feridas e as nossas cicatrizes, são pequenos pedaços de nós que não se podem esconder.

1 Comments:

At 10:28 da manhã, dezembro 20, 2005, Blogger pedro said...

Posso mostrar-te a minha mão esquerda? ;-)

 

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