c Trambolhão: Dezembro 2005

segunda-feira, dezembro 26, 2005

que Divas


Quem me dera ser actriz. Como aquelas dos filmes românticos de Hollywood. São lindas elas, envoltas naquela aura de mistério, embrulhadas em casacos brancos de pele, sempre com tudo arrumado e no sítio, tal qual as nossas caixas de jóias. O cabelo delas está sempre em perfeição plena, mesmo que esteja embrulhado num lenço de cetim e que estejam a dar piruetas numa avioneta, os óculos, oh que perdição, aquelas maravilhosas armações gigantes que escondem a cara toda, mas que mesmo assim lhes ficam super elegantes. Transparecem serenidade e calma, mas ao mesmo tempo, quando se desabotoa uma frecha do seu sorriso,é bem capaz de sair de lá uma frase pelo cortante e gélida. Para elas basta just one look, e trás, lá estarão eles postrados a seus pés, qual cachorros abandonados à sua mercê. Maravilhosas e deslumbrantes divas, elas encarnam o ideal feminino do nosso século extinto há bem pouco tempo. Qual será porventura o ideal feminino do século XXI? Mulheres práticas e desportistas, mães de família com calças arregaçadas até ao joelho, mães virtuais pelo computador? Eu imagino-nos a nós mulheres agora nas mais diversas profissões. As chefes de empresas yuppies, designers, médicas, professoras, escritoras, são mulheres com postura e garra, menos nayves, enfim construções mais sólidas mas sem garantias de perfeição e sem retorno. Caímos do pedestal, infiltrámo-nos na multidão, sujámos as mãos, mas tornámo-nos mais humanas. E por isso, talvez por isso, os homens às vezes nos tratem com um bocadinho menos de dignidade, pois encolhemos a distância e eles perderam o medo de nós, já não somos inatingíveis. Mas a partir daqui conquistámos a liberdade de sermos imperfeitas.E isso é maravilhoso, porque nos dá o direito de errar e sobretudo de tentar fazer algo novo. Já não somos encaixadas em moldes pré-fabricados e em comportamentos padrão...No entanto, bem no fundo, manteremos vestígios da diva, bem disfarçados, mas que permanecem...

segunda-feira, dezembro 19, 2005

Entrevista café-concerto

Hoje fui a uma entrevista. Correu bem, estava super descontraída, só me apercebi que estava lá dentro e que estava a ser avaliada passado um bom bocado. Gostei dos entrevistadores, eram muito simpáticos, gente boa, jovens sorridentes, sei lá... Era assim que todas as entrevistas me deveriam correr. Fui de calças de ganga, de casaco verde com 5 anos mas que eu adoro, de rabo de cavalo, enfim, sem jeitos nem mais trejeitos, simplesmente eu. Fora com as camisas e os fatos apertadinhos, as botas de salto alto, ou os brincos pendentes. Fui com golas altas e botas de salto raso, senti-me perfeitamente eu. Deixem as pessoas respirar, tirem-nas dos fatos, ponham-nas descontraídas, ou então, deixem que seja a própria pessoa a escolher o estilo que quer. Acho que nunca me ri tanto numa entrevista. Se calhar também deixei passar uma imagem de tontinha, eu quero lá saber. Fui feliz e saí feliz, ao passo que às vezes só me dá vontade de sair de cada uma destas pequenas torturas e enfiar-me numa pastelaria a comer um grande palmier recheado. Porque tenho um péssimo tique, já devem estar a adivinhar, cada vez que estou mais ansiosa, mais nervosa, deprimida, ou com vontade de deitar uma bomba nuclear em certos sítios, disparato sempre em comida. Os bolos são o primeiro alvo, e logo a seguir talvez um salgadinho. Porque para confortar a alma às vezes basta enchermos o nosso reservatório de substâncias que são tudo menos inócuas. Depois o problema são os quilos que se avizinham tornar-se em gordura, e entramos outra vez no carrossel do yo-yo sem nos darmos conta. O que vale é que as entrevistas não abundam, por isso não tenho muito com que me preocupar, pelo menos até ao próximo Natal. Que é já daqui a uma semana, oh não... Vou fazer abdominais. Adios!

domingo, dezembro 18, 2005

Na Primeira Pessoa


Lá fora não há ninguém. Perturba-me escrever quando pressinto os passos vindos por detrás de mim, que espreitam os meus escritos inacabados. Fecho o ecrã. Olho para a minha mão, tem um M desenhado à antiga, será um M cozido com uma linha transparente mas que não desaparece. A cigana disse que eu ia ser muito feliz e depois muito infeliz. Não haverá meio termo pensei eu? Não me dão a hipótese de escolher o que quero? E eu não conto para o meu Destino? Serei só uma marioneta nas vossas mãos, na tua, na dele? Não, não aceito, estou inconformada com o caminho das coisas. O tal Sr. do outro dia, com olhos carregados de cinzento disse-me que não. Ele tinha um chapéu preto e impunha respeito, era alto. Ok, se ele disse que não, então eu só posso encolher-me nos meus ombros fininhos. Vou passear ao café. Lá estarão mais destas linhas de eléctrico escritas sobre palmas de mãos de srs. e sras. mais idosos... Vamos comparar, mas nestas há tantas, e entrecruzam-se, que me perco em histórias mirabolantes sobre Pensões e Remédios e fábulas de adormecer com aldeias e filhos e netos. Pago a conta. O meu caderno preto ficou perdido na paragem de autocarro. Volto para trás, estará nas mãos de uma criança morena pequena com 1096 dias. Ela não percebe nada do que lá está escrito, são só bonecos para o seu imaginário. Mas vejo uma mão estendida. Posso comparar com a minha, lá estão desenhadas apenas três linhas distintas, claras e bem definidas. A vida nela ainda pode ser escrita e reescrita, a sua palma é só um quadro em branco, é a metáfora da tábua rasa. Quando quero conhecer a história de vida de alguém, tenho sempre o péssimo hábito de lhe pedir que me abra a mão esquerda, porque está mais próxima do coração. Depois tento percorrer todos os caminhos que lá se mostram, onde não há portas escondidas nem traços apagados, está tudo reflectido sem pudor nem despudor, os montes, os vales da lua, os empregos, os sonhos perdidos ou não... Estão lá também os calos, as unhas (im)perfeitas, os acessórios, as alianças ou as separações, as feridas e as nossas cicatrizes, são pequenos pedaços de nós que não se podem esconder.

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Suspensão


Suspensa entre dois eixos, temo que as minhas pernas não aguentem a pressão, se desiquilibrem e que o meu corpo caia. Fazer equilibrismo sobre os dois membro inferiores é díficil, se uma esfera desliza 1 cm, logo a outra se afasta o dobro. E como temo não ser uma super heroína, não posso fazer com as minhas pernas se transformem em borracha e estiquem até tocarem nas paredes. Para sermos artistas de circo e de espectáculos de variedades, há que treinar dias e noites. Requer sobretudo muita concentração. Esforço mental e físico. Porque basta uma respiração mal colocada, a aragem da janela, o telefone a tocar, o amigo que chega, a gota de suor que escorre da nossa testa... Ao longo da nossa vida tentaremos ser artistas de variedades todos os dias, iremos desdobrar-nos em personagens fantásticas, mas mais exigente ainda, porque as nossas esferas não são apenas uma ou duas, podem multiplicar-se e transformar-se em mil. E aí resta-nos saltar, como rãs nos charcos, de nenúfar em nenúfar, tentando não ir ao fundo, porque enfim, sempre somos um bocadinho mais pesados do que uma rã. Se cairmos, o que nos resta é saber levantar, e custa porque quando somos derrubados, raios, como é que vamos conseguir puxar todo o nosso peso para cima de uma estrutura tão frágil, sem sermos submergidos outra vez? Exige precisão, tempo e sobretudo força de vontade, paciência, tudo o que vocês sabem tão bem como eu... E a partir daí não queremos cair nunca mais, logo nos esforçaremos por evitar o contacto do nosso corpo quente com a água gélida. Porque infelizmente também não somos répteis e temos o nosso sangue sempre quente a correr nos nossos caminhos intravenosos. Há quem pense que existem seres milagrosos que nunca caíram, mas esses, para mim só os poderei considerar como anjos.

segunda-feira, dezembro 12, 2005

Aprender a ler

Às vezes demora muito tempo a conseguirmos aprender a ler o outro. Porque ele não se mostra inteiro, nem se revela de uma vez só, torna-se qual peixe num aquário, mas um de vidro bem espesso. E precisamos de bater devagarinho do outro lado e ficar sentados no banco da cozinha a perceber as suas reacções. Ele olha com os olhos bem esbugalhados, e começa a girar rapidamente, até ficar tonto e deixar-se apenas boiar ao som de música clássica que sai do saxofone. Porque apesar de tudo primeiro estranha-se o contacto e só depois de entranha, nas nossas entranhas mais fundas. Porque ninguém gosta de se deixar perceber à primeira vez e todos fantasiam o mistério. O outro é um mapa, com cores por vezes muito definidas, por vezes transparentes, outras indefinidas. Percebemos as coisas com alterações de humor, com berros, hesitações, pausas e sobretudo silêncios. Acho que o silêncio, que hoje escasseia, é um sinal de quebra, de necessidade de isolamento. Este porventura será o maior e mais evidente sinal de quem prefere estar só, é uma reacção fácil de perceber, é o sinal de que o outro não está disposto a estabelecer qualquer tipo de relação connosco.
De acordo com o silêncio, eu divido as pessoas em três tipos. Primeiro, as que se silenciam bastante a si próprias, ou seja, são as caixinhas que só dão a chave quando querem e a muito poucos. Segundo, as que falam sobre tudo e sobre nada e raramente fazem silêncio, ou seja, as pessoas espelho que reflectem tudo o que se passa no exterior. Terceiro, temos existências que seguem os silêncios das outras, ou seja, as chamadas sombras, que não estão por cá espiritualmente, apenas fisicamente....
E deve haver mais tipos, ou seremos todos uma combinação destas três?
Até amanhã....

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Peripécias do dia-a-dia


Vinha eu a subir a Guerra Junqueiro em pleno Feriadão, quando fui confrontada com duas embalagens de perfumes cores-de-rosa diante do meu nariz. A Sra. Cigana aprontou de imediato o negócio. Apercebendo-se de que duas ingénuas jovens se atravessavam no seu caminho, encenou todo o espectáculo. Um perfume 30 euros, menina, é da moda. Eu olhei, realmente, que boa prenda de Natal, um perfume novinho em folha e tão barato, da Acqua de Gio, Lacoste, ou da Gucchi, ou do que eu quizer, é só ir buscar ao camião dos presentes. A minha amiga entrou a matar, pediu 20 euros e perguntou qual era a proveniênia dos perfumes. A Sra. então cedeu um pouco a corda e ofereceu por 40 euros os dois. Mas não temos o dinheiro aqui à mão. Podem levantar aqui já ao lado, diz o Sr. Cigano, com ar de raposão e dentes de ouro, que esconde dentro do casaco preto de cabedal caixinhas quadradas e rectangulares em todos os bolsos possíveis e imaginários. Se não sabiam passam a saber, que esta raça tem a particularidade especial de saber dar o bailinho a todos os que lhes dêem conversa, não sei porquê, mas a vida é feita destas coisas.
No dia-a- dia, para as Sras. ler a sina é uma habitué da tarde e para os Srs. temos o curso de dicas de venda de tapetes orientais, ao passo que de noite embalam os seus dez filhotes e penteiam as tranças das meninas ciganitas. Mas há sempre tempo para descobertas: Após várias tentativas de experiências, conseguiram inventar num fábrica improvisada à pressão, uma fórmula química que mistura essências de colónias baratas para fabricar os perfumes da moda. Existe depois o ex-libris, uma fotocopiadora XPTO que tira retratos idênticos às capas dos perfumes mais famosos. E os direitos de autor? Calma, tudo foi pensado ao milímetro, o Sr.Gucchi, entre outros, cederam parteda sua fortuna, como consta do contrato assinado pelas caravanas todas em circuito. Então, está bem, levamos os dois frascos e metemos tudo na mala, antes que venha a polícia e nos leve todos para a choldra. Olhe que não se vão arrepender, replica a vendedora, até ali as senhoras da perfumaria à bocado me vieram comprar um frasco. Que óbvio, não é? Se até elas, que provavelmente têm descontos em produtos da sua própria perfumaria, preferem mesmo assim ir à Sra. Cigana poupar uns euros.
Passados dez minutos decidimos abrir os frascos. O cheiro era forte, tipo ambientadores das casas de banho, mas os frascos eram do melhor, imaginem só, pintados à mão. Começa a perseguição em fúria. Queremos o nosso dinheiro já, não há cá mais conversas, porque isto é tudo falso. A Sra. Cigana tem muita piada, afinal gastou tudo em fraldas para o filho e em comida para encher a barriguinha de mais uns bolinhos. Mas dá a garantia, eu vendo rapidinho mais uns sonhos de Natal e tudo se resolve. É só voltarem daqui a meia hora e nós ficamos aqui paradinhos à vossa espera, qual reis magos no presépio. Então faça o seu trabalho, insiste a minha amiga. Sem dó nem ré, a cigana começa a afastar o seu rabinho de sereia entre as perninhas e foge. Juntam-se mais uns quantosa ela, que se justificam, porque também eles são vítimas do sistema e compram os produtos assim... Afinal não existe só uma fábrica, a concorrência e o espírito capitalista já inundaram as caravanas ciganas, e cada um se tenta aldrabar mais que o outro.

Quando demos por isso, já tinham fugido e nem precisaram de correr... Nós apenas nos limitámos a dizer que íamos chamar a polícia, mas infelizmente os Srs. de farda azul só se encontram quando menos precisamos das suas acções de caridade. Não desistimos, vamos atrás. Mas o receio instala-se: E se eles resolvem puxar de uma faca ou de uma arma? Enquanto pensamos nisto, eles desmagnetizam-se pela boca do metro e nós ficamos de mãos a abanar, sem as nossas notas, nem mais idéias espertas... Belo feriado, não?

Stop, in the name of Christmas

Spot inicial: Telheiras. Ontem estive uma hora para chegar ao Terreiro do Paço, foi complicado. Porque todas as famílias de Portugal e arredores resolveram parar só 5 segundinhos para espreitar a Árvore de Natal. É motivo de orgulho nacional, a seguir à selecção, ao Benfica e à Marisa. Os portugueses realmente podem ser pequeninos, mas têm a maior árvore de Natal da Europa, senão me engano. Caso não esteja a fazer mal os cálculos, nós temos x metros de altura de metal, coloridos com umas luzes chinesas, que transpiram umas músicas piedosas, cuja intenção original é propagar a mensagem natalícia. Eu deixo aqui um apelo (embora ninguém me oiça, eu não faço calar), utilizem o metro, mexam as pernas, vão de helicóptero, ou de jacto privado, agora não fiquem é ali paradinhos a observar a bendita escultura, como se fosse a maior obra de arquitectura nacional.Que eu saiba não custa nada ficar em casa a olhar para o pinheiro doméstico e pôr o CD da Mariah Carey a tocar com músicas de Natal, bem mais agradáveis.

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Bola de Balão

Às vezes sinto-me como uma bola de sabão, transparente e escorregadia, sem definição de trajecto, cuja direcção é comandada pelas aragens que sopram junto aos meus ouvidos. Sinto-me frágil, ao mínimo toque desapareço, pois as estatísticas ditam que tenho um prazo de vida máximo de 5 segundos.
E quando estou assim cerro os meus dentes e procuro imaginar-me o contrário, forte como um rochedo, colossal como um gigante, segura como um árvore com 300 anos cujas raízes nunca se levantam do solo, mesmo que sejam atravessadas por um Furacão ainda maior que o Kathrina.
Será que o poder de visualizarmos as coisas faz com que estas possam realmente acontecer? Acho que sim, é mais fácil programarmos as coisas se tivermos um projecto, ou uma estratégia, tipo com 50 anos quero ser a dona deste mundo...onde será que eu já ouvi isto? Mas eu sou preguiçosa, e de vez em quando apetece-me voltar ao estado da bola de sabão, voar levemente ao sabor do vento, sem rumo, seguir as outras, reflectir o arco-iris das minhas cores, sentir-me leve... Mas os tempos de hoje não me deixam, e a minha natureza contemplativa urge em transformar-se em activa, apesar de eu saber que no fundo me considero uma observadora inata.